11 Julho 2009

moeda

O problema de eu me importar contigo é que passas a ter o poder de me ferir. E quanto mais eu gostar, mais é provável que algo que faças ou te aconteça possa me destuir irremediávelmente. Uma palavra torta, uma traição, uma mudança de planos que te leve para longe ou para nunca mais. Um punhado de terra sobre teu corpo inerte. Mas eu escolho continuar. Conhecendo e podendo gostar de pessoas. Seguir abrindo meu coração para aquelas por quem eu realmente venha a me importar.
Porque cada um que se preocupa contigo é uma mão estendida para te levantar. É alguém que te pode ajudar a sarar.

28 Junho 2009

cotidiano

Era a droga de um bar imundo com ovo colorido no balcão e sanduiche de pernil de anteontem. Sua mãe não podia nem sonhar que tinha entrado num lugar desses! Mas tinha. Pediu um cigarro e depois de amaldiçoar mais uma vez aquele vício maldito acendeu com prazer. Lá fora um sol mexicano assava a calçada. Do lado de dentro a cerveja gelada descia redonda. Fora a cerva honesta, não havia mais nenhuma loira por perto para completar o cenário de anúncio de cerveja. Tinha trabalho a fazer. Cedo demais mas o cliente preferia assim. E o serviço se aproximava naquele instante do balcão. Queria uma cerveja e filou seu cigarro. Tudo bem. Entraria na conta. Olhou bem o que o esperava e ali, sob o olhar curioso do português barrigudo, o comercial se completou. -Você é o melhor que eles tinham? Se dirigiu diretamente pra ele que naquela hora se soube lascado. Os filhos da puta tinham-lhe dito que era simples. Serviço sujo, pacote economico, sem muita firula. Mas a firula era gostosa e mulher bonita tem vantagem, até na hora de levar um tiro nos cornos. -Pra quê a pressa? Eu não vou fugir, bonitão. Ouviu já meio grogue pela mão que ela sem cerimonia já passava pela sua perna. Além de tudo lia pensamentos. O destino estava traçado. Os dados rolando naquelas mãos esguias e macias. Estava perdido, sabia disso. Mas apenas levantou, deixou uma nota grande para o português que lhe piscou por de trás das sobrancelhas grossas, e a seguiu com um sorriso nos lábios.

21 Junho 2009

memória

Faltam-me a palavra. Ela foge. Faz graça e se escapa entre meus dedos, feito criança traquina. Se enrola na minha língua, sinto-a aqui, na ponta. Sabe? Dançando e rebolando entre meus dentes. Para em seguida soltar uma longa gargalhar e mais uma vez se esquivar. Persisto. É das fáceis. Vem em todos os dicionários. Ai! Me espera um pouco que eu consigo. Vou dizê-la. Deixa apenas esvaziar minhas idéias, vasculhar esta desordem que é minha cabeça tonta, que ela de certeza aparece. Escondida entre as contas do mês e a briga com Maria. Não me apressa! Vou lembrar. Não vá ainda. É importante, juro. Droga, quase. Por um momento pensei... Já sei!... Eu disse que lembraria. Mas você não esperou. E já está longe demais para ouvir. Agora que não tenho mais como esquecer.

19 Junho 2009

onde você estiver

Você para onde eu sempre volto quando tudo se desmorona. Refúgio que criei para sobreviver a estas noites impossíveis. Quando minhas cicatrizes ressangram. Quando o mundo me maltrata e não há para onde fugir. Quando tudo estiver indo bem, quando tudo também se desfizer. Será que se lembra? Será que também se controla para não chorar? Porque enquanto você lembrar, é de verdade. A prova que é possível. Que foi possível. Estas ilusões que até hoje persigo. Por uma noite a mais. Para sermos felizes como nunca ninguém foi capaz. Juntos ou não. Minha nesga de lua entre nuvens sombrias. Não se esqueça de mim.

10 Junho 2009

partida

Cada vez que parto, perco um pedaço. Me parto também. E preciso, para voltar a ser inteira, me reinventar mais uma vez. Um novo parto de mim mesma. Para que possa seguir pela vida inteira, mesmo estando assim, (de) partida.

09 Junho 2009

só hoje

Quero chorar meus dias sempre iguais, minha solitude entranhada que de longe se adivinha.
Prometo amanhã construir desfechos diferentes.
Mas hoje, só hoje, o mundo inteiro me dói.

03 Junho 2009

viva sebastião!

Tem dias que nem o céu cinzento cuspindo gotas mal-humoradas me derrota. E que as manchetes dos jornais, vomitando calamidades antes do café da manhã, não me fazem voltar correndo para o quentinho das cobertas. Que a balança não me abala e o espelho é cúmplice. Dias em que eu escolho finais diferentes, outro caminho. Abraçar em vez de gritar. Ficar em vez de partir. Se eu ainda sonho? "Pelo sonho é que vamos." Deixo Sebastião responder por mim. A verdade que outros souberam dizer melhor que eu. Mesmo sabendo que não caibo nos seus sonhos, que não pretende acompanhar minhas loucuras. Mas hey, "Haja, não haja frutos(...)"

01 Junho 2009

tempo II

Vai dia, noite, horas, esta tarde que se prolonga em agonia. Passa! É mesmo necessário penar cada segundo? Pudesse, acelerava os meses em dias!
Tenho pressa que o tempo passe, para você me passar.

30 Maio 2009

a farsa

Meu mímico me envolve, cativa. Sei que usa máscaras mas ahh... ele sabe cultivar o suspense! Dá saltos pelos quais não espero. Tão bonitos e tão exatos que os diria coreografados se pudesse. Se ousasse duvidar de sua perícia. Mas meu mímico sempre se supera e me encanta a cada nova peripécia! Sempre outras faces antes que nelas pense. Gargalho a cada nova em deleite, a cada reviravolta! Uma rosa, um segredo. Bravo!! A Tristeza, a Esfinge. O Amor, para deixar o mundo a explodir em cores. Eis que, reviravolta, surge um novo rosto. O último, parece. Máscara? Tem brilho de pele. Pele lisa, linda e macia. Se desnuda enfim e como sorri bonito para mim! Me aproximo em transe, em ânsia. Quando me atinge o que se exala por baixo da casca... ahh... o cheiro! É podre.
E o artista se desmonta em fragmentos hediondos. Putrefactos.
A farsa é finda. Cortinas abertas.
E ninguém aplaude.

23 Maio 2009

ela

E foi assim mesmo, sorrindo esses olhos que iluminam meus dias vazios e iguais, que me deixou numa tarde em que eu tinha comprado de surpresa ingressos pro teatro. Não era eu, era você. O velho motivo que nada explica mas que foi tudo que eu consegui arrancar. Assisti a peça sozinho, cadeira do lado vazia martelando sua ausência, e não houve atuação premiada que me desconcentrasse da imagem do seu rosto naquele dia em que choveu toda a agua do mundo sobre nossas cabeças. Dvd e cobertores, amor... Lembra?!
Homem não chora, mas que homem sou eu sem você por perto? As lágrimas rolaram soltas, um sax qualquer rolando no rádio do carro, céu ranzinza, lua amuada, nuvens carentes procurando o aconchego umas das outras. E eu a caminho de casa . Mas não existe mais casa sem voce pra deixar a toalha molhada em cima da cama. Larguei a minha do mesmo jeito que voce fazia tentando recuperar entre aquelas quatro paredes um pouco do sentimento de lar mas não funcionou. Não resisti e larguei seus chinelos na entrada do jeito de sempre, te esperando para sempre... Sabe pequena, não notei a sua chegada, um dia voce de repente estava ali e eu percebi as palavras que costumeiramente me escorregavam pelas cordas vocais se atropelando desconexas. Farta da profusão de palavras inúteis que contínuamente brotavam de mim voce resolveu colocar um fim naquilo tudo e eu sou eternamente grato por isso até hoje. Ah... alguém que me entenda sem que eu precise expressar o que não saberia dizer! Os deuses foram generosos comigo naquele Natal.

Acordei no dia seguinte não tendo motivos para acordar. Olhei o espelho na hora do banho encarando meu futuro ora obsoleto. Alcancei a tomada com o cotovelo esquerdo mas a luz do banheiro não me trouxe o esperado conforto. Apenas deixou mais crua e flácida a verdade nua. Vesti uma roupa qualquer e, arremendando o que sobrou de mim do jeito que deu, ténue esboço do que sou ao seu lado, saí à rua, determinado a seguir em frente. Eis a curva da estrada.

04 Maio 2009

socorro

14 Abril 2009

tempo

Chove do outro lado da janela, meus dedos gelados mal conseguem se articular para calcar as teclas lisas e desconfortavelmente mornas. Preciso de um aquecedor, uma luminária e de crédito no telefone. Perspectivas para o futuro também, obrigado. Aquela história do macaco na chuva, conhece? Amanhã... quando parar de chover... adiando amanhãs a cada novo dia que se levanta. O problema é que o futuro era pra ontem.