O tempo em que ele não esteve perto pareceu um parêntese, e daqueles parênteses longos que atrapalham a leitura, a linearidade do raciocínio. De certa maneira, era como se o próprio tempo roubasse de minhas mãos o tempo que me pertencia ao lado dele. Todos os dias contados em tempo negativo. Os dias que não passamos juntos. (E a eles se some esse ardor, estas mãos que me percorrem insatisfeitas.)
O tempo em que ele não esteve perto foi tempo demais, tempo a mais.
Desesperado em cada milissegundo eterno. Malgasto em tentativas vãs. Mais carimbos no passaporte, um pouco mais de álcool no meu copo. Mais do amor malfeito, destes que desfilam pela minha cama e que amo sem amar.
Nem cartas, poemas, nem todas as conversas em todas as madrugadas, tentando adivinhar expressões que se escondem atrás do telefone. (Palavras para dizer bem menos do que meu corpo seria capaz.) Não é uma batalha que possa ser ganha.
Que sentido para estas flores? Para este sol bonito se preparando para dormir? O ruído do mundo que passa é uma televisão fora da sintonia e eu sou só mais um, cruzando a esquina. A vida corre e eu pareço ficar. Padeço. Presa nesta promessa que tarda em se cumprir. Prestes a me afogar em lençóis suados nestas madrugadas silentes que nunca chegam a amanhecer. Em todas as verdades que aprendemos a mentir.
E é preciso apenas um novo instante. Um novo toque (uma nova carícia no vão dos seios) deste homem que se transforma e se faz imenso, meu íncubo particular. E assim o tempo inteiro se condense de tal maneira que não haja nada entre aquele último momento e o aqui e esta blusa que já não me veste. Para que a vida me arrebate de novo, e me encontre assim, de espinha arqueada, clamando aos céus que o tempo não passe nunca.
11 Dezembro 2011
25 Julho 2011
O banheiro tem aquela luz de cabine de provas que te deixa pálida. Pelo menos não tem a mesma imensidão de espelhos me censurando por todos os ângulos. Mas não é hora para essas inseguranças femininas bobas. Você está do outro lado da porta e eu ainda estou pouco à vontade, mas é uma questão de tempo. Agora mesmo, eu não consiga parar de pensar se endoideci de vez. De ajeitar o cabelo atrás da orelha. Acho que deve estar meio impaciente porque a porta se abre e estás atrás de mim, dizendo uma bobagem qualquer no meu ouvido, que eu não preciso ouvir para entender. Continue se encostando assim que tudo vai ficar bem. Não sei quanto a você mas a mim o tesão me pega pela respiração. Fica difícil, o ar faz fita e não entra e minhas células se atordoam, os joelhos amolecem e viro só pele eriçada e vontades. Mas é preciso ser preciso. Começar devagar, titular doses. O gesto certo ao sabor da canção, deixar que vento e chuva cumpram seus papéis do outro lado da janela. Mesmo neste pardieiro que você me trouxe, de certas coisas não dá para abrir mão. Então faço que não estou nem aí e me afasto um pouco para que me olhe inteira enquanto vou para o quarto. Todos os dias da minha adolescência gastos a aprender o equilíbrio instável sobre estes saltos estão valendo a pena agora que te sinto cada vez mais tenso enquanto olha para a minha bunda se passeando pelo quarto, indecisa se me dirijo à cama ou à janela. Ainda não trocamos nenhuma palavra desde que chegamos e estou achando bom assim.
10 Julho 2011
23 Abril 2011
rascunhos
Pausa. Apaga. Mais palavras, nao... menos sorrisos, mais auto-confiança para parecer que está tudo bem mesmo. Saudades!!! Ah... exclamaçoes a mais. Começa de novo. Por aqui tudo bem, quem sabe eu apareça por aí em breve. Parecem palavras para uma tia velha... que nao dizem nada, apenas preenchem espaços no papel. Salvar, rascunhos. Outro dia, talvez.
31 Março 2011
nandiland
Viver é necessário. Escrever não é necessário. Quando as coisas não fazem mais sentido é preciso saber deixá-las para trás. Fui! Foi bom.
11 Janeiro 2011
08 Janeiro 2011
feliz ano novo
"(...) como se faz para viver uma vida vazia?"
Sorria um pouco, sirva-se de mais uma fatia. Uma dança aqui, algumas palmadinhas efusivas nas costas do cunhado. Comemore bastante. Mais um ano que passou. Faça listas de promessas a serem cumpridas, mesmo que a motivação se perca antes do fim da 1a semana.
O sofrimento que esta´ por vir. Todo o cansaço e mais um pouco da fé na humanidade escorrendo ralo abaixo. Aquela pessoa que vai morrer, A catástrofe que esta´ para acontecer. Milhares e milhares de vitimas inocentes. Mais um glaciar derretido, mais algumas baleias desorientadas. Animais de circo, fazendo acrobacias de cão obediente. Aplausos!! As novas rugas, as novas dores, uma traição inédita. Aquele sorriso, aquele sorriso.
31 Dezembro 2010
Atrasarei todos os relógios. Saltitando entre fusos horários enquanto der. Para esticar um pouco mais esse tempo que será o presente enquanto eu conseguir trocar as voltas `a memoria. Você estará aqui, comigo, nem que teimem que se passaram 30 anos. E estaremos os 2 em 2010. O ano em que você ia embora e eu não consegui te deixar.
27 Dezembro 2010
mudo animal
Os animais são nossos companheiros de planeta Terra, numa divisão já de si muito pouco equalitaria. Não são propriedade, muito menos prole. Então desculpe, eu não acho uma gracinha seu gato de lacinho, seu cachorro telecomandado, adulterados na sua natureza, se vendendo assim, por uns biscoitinhos e uma lata de carne processada. Pensando bem, a cara do dono.
depois dela
Depois que ela saiu em prantos me beijaste como nunca antes. E era medo, que fluiu do calor da sua boca para as minhas veias e me entupiu a respiração. Depois dela você me amou melhor, com mais empenho, como quem se esforça muito para se fazer o homem que eu preciso. Sorri mais nas fotos, e trás menos livros para a nossa cama. E nunca fui tão feliz como hoje. Mesmo que só me beije de olhos fechados.
11 Dezembro 2010
2010
Este ano está indo embora e me aflige pensar que você vai ficar para sempre preso nele. Ficar pra trás, sem as passas, sem roupa banca ou uma ressaca a ser curada no dia seguinte. A sociedade continua criando pequenos dramas todos os dias e você já não diz nada. Minhas pequenas misérias e conquistas medíocres. Suas opiniões, que eu gosto tanto de ouvir, silenciadas por uma madrugada estúpida. O mundo acabou em 2010 e não sei como mais ninguém percebeu.
10 Dezembro 2010
Sem retorno
Curva apertada para a direita. O cinto prende mais que assegura. Ouço chaves, cadeados pesados sendo trancados. Sinais se avermelham por onde passo. Em frente apenas a luz tímida de uma lanterna que já conheceu pilhas mais alcalinas. Em dias como este e´ impossível ignorar os ruídos. A voz está lá, apesar de você sacudir a cabeça como quem manda embora uma mosca chata. Ela se retrai momentaneamente mas logo volta, e fica te martelando como um mantra. às vezes inaugura o dia, antes mesmo do despertador adiantado cinco minutinhos, tortura preferida de 9 entre dez proletários.O momento em que escolhemos um caminho. Uma verdade para seguir. E todas as outras continuam zunindo na nossa cabeça em protesto.
Eu, pobre criança arrogante, incapaz de preterir um brinquedo em favor dos outros, escolho mais um caminho com a esperança de não ter errado muito.
Eu, pobre criança arrogante, incapaz de preterir um brinquedo em favor dos outros, escolho mais um caminho com a esperança de não ter errado muito.
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